Segunda-feira, Fevereiro 18, 2008

Animais de maior porte revelados à ciência em datas recentes









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As descobertas recentes não se limitam a animais minúsculos. Há também seres de porte médio e um ou outro realmente grande. Nenhum deles é tão surpreendente quanto uma nova ordem de insetos ou um novo filo de invertebrado marinho, mas ainda assim, interessante o suficiente para merecer menção.

A maior descoberta de vertebrado terrestre no século XX, aquela que ainda hoje, mais de um século depois, ainda alimenta as esperanças dos caçadores de yetis e mapinguaris, começou em 1890, quando o famoso explorador Sir Henry Stanley mencionou em seu livro que os pigmeus da floresta de Ituri, no atual Congo, conheciam e caçavam uma espécie de asno que vivia na selva e se alimentava de folhas.

Em 1899, Sir Harry Johnston, governador de Uganda, resgatou um bando desses pigmeus, capturados por um empresário alemão que pretendia fazer fortuna exibindo-os como "homens-macacos" em Paris. Johnston conhecia Stanley e seu livro e aproveitou a oportunidade para perguntar aos agradecidos pigmeus sobre o misterioso "asno da floresta". Eles confirmaram a informação: davam-lhe o nome de o'api. O inglês entendeu o nome como ocapi e julgou entender que se tratava de uma nova espécie de zebra.

No ano seguinte, investigou o assunto a fundo, viu corpos incompletos e soube que tinham mais de um casco em cada pata - o que o levou a crer que havia descoberto um fóssil vivo, um remanescente do Hipparion lybicum, pônei de três cascos que viveu na África há mais de meio milhão de anos e pode ser o ancestral das zebras e asnos.

Convenceu-se disso a tal ponto que desprezou rastros apontados por nativos como sendo do animal misterioso. Ora, as pegadas indicavam cascos duplos e todos os eqüídeos, vivos ou fósseis, têm cascos ímpares! Com certeza, os pigmeus se enganaram, seria alguma gazela grande...

Mas em 1901, Johnston conseguiu uma pele e dois crânios do misterioso ocapi e os despachou para o Museu Britânico. Descobriu-se então que não era eqüídeo, mas um parente selvático e de pescoço curto da girafa das savanas, de casco realmente fendido e que veio a ser classificado como Okapia johnston.

Outras espécies de grande porte foram descobertas no século XX, mas nenhuma tão diferente de animais já conhecidos. O "gorila da montanha" de 1902 surpreendeu os zoólogos, mas só os especialistas são capazes de apontar suas diferenças em relação à espécie das terras baixas, conhecida desde 1847.

Algo mais interessante foi a descoberta, em 1934, de que os chimpanzés, bem conhecidos da ciência desde o século XVIII, dividiam-se em duas espécies diferentes: o comum e o "pigmeu", hoje conhecido como bonobo. São fisicamente semelhantes, mas muito diferentes em comportamento e temperamento: o bonobo é bem menos agressivo e mais sensual e promíscuo que seu primo mais robusto.

O porco gigante da floresta (Hylochoerus meinerzthageni), da África Equatorial, é uma descoberta de 1904. Distingue-se pelo tamanho (200 kg) e pelas curiosas protuberâncias faciais do facóquero ou javali verrugoso africano, mais conhecido (o Pumba do desenho da Disney), que pesa em torno de 80 kg.

Do outro lado do Atlântico, sabia-se desde os tempos coloniais de dois suínos selvagens: o caititu ou cateto (Tayassu tajacu) e o queixada (Tayassu pecari). Ambos são comuns no Brasil e outros países sul-americanos, mas embora os índios as tenham distinguido, poucos brancos e mestiços chegam a notar a diferença: em geral as chamam ambas de "porcos do mato" ou "javalis".

Não é de admirar que a terceira espécie, tenha passado despercebida da ciência até 1974, quando um biólogo estadunidense, Ralph Wetzel, notou que os índios do Chaco argentino, boliviano e paraguaio distinguiam três espécies. A terceira, conhecida pelos guaranis como taguá, além de ser um pouco maior que o queixada (cerca de 50 kg), mostrou-se menos parecida com seus dois parentes vivos do que com os Platygonus e Catagonus, suínos fósseis extintos há mais de um milhão de anos. Esse surpreendente "fóssil vivo" foi classificado como Catagonus wagneri.


Hipopótamos anões e lulas gigantes

Um caso curioso é o hipopótamo anão das florestas da Libéria, animal de cerca de 180 kg. Desde 1849, alguns crânios e esqueletos vinham sendo encontrados e descritos por alguns pesquisadores, mas a maioria dos zoólogos o considerava um mal-entendido causado por espécimes anormalmente pequenas do hipopótamo comum (que pesa duas ou três toneladas) ou uma espécie extinta, embora liberianos continuassem a falar do animal e chamá-lo nigbwe. A existência desse Choeropsis liberiensis como espécie viva e separada só foi provada em 1913, quando um zoólogo conseguiu capturar cinco animais vivos e levá-los à Europa.

Algumas espécies de bovinos foram descobertas em datas bem recentes. Em 1937, cientistas identificaram como nova espécie (Bos sauveli) o boi selvagem cinzento conhecido no Camboja como kouprey. Apesar do tamanho (até 1.700 kg), passara despercebido, provavelmente confundido com outros bois selvagens mais comuns na região, o gauro e o banteng.

Já em 1992, na floresta de Vu Quang, fronteira entre Vietnã e Laos, cientistas vietnamitas descreveram cientificamente mais uma espécie de animal de tamanho respeitável: até cerca de 100 kg. O Pseudoryx nghetinhensis, há muito conhecido dos nativos como saola, lembra antílopes como os órixes da África e Arábia, mas é um pequeno bovino e seus parentes mais próximos são os touros, búfalos e bisões. É tido como a maior descoberta real da criptozoologia desde o ocapi.

Na mesma floresta, foi descoberto, dois anos depois, o "muntiaco gigante" (Megamuntiacus vuquangensis). Gigante, bem-entendido, para um muntiaco, gênero de veados asiáticos que latem como cães, também conhecidos como veados-ladradores.

Os animais da floresta Vu Quang chegam a 50 kg, enquanto a espécie mais comum, indiana (Muntiacus muntjak), não passa de 18 kg. Há indícios e boatos de outras espécies raras de animais de médio porte nas florestas da Indochina. A Universidade de Hanói criou uma unidade para procurá-los e estudá-los, apelidada "Centro de Pesquisa de Animais Raros e Criptozóicos do Vietnã".

São animais praticamente inofensivos, mas também há alguns mais perigosos. O mais notável é o famoso dragão de Komodo, lagarto gigante da Indonésia conhecido pelos nativos como ora e descoberto pela ciência em 1912. Não só é de tamanho impressionante - até três metros e 150 quilos - como sua língua amarelo-brilhante sugere cusparadas de fogo. Sua mordida é infecciosa e facilmente degenera em septicemia, se não for tratada: cerca de doze humanos foram mortos por esses animais no século XX.

Menor, mas igualmente perigosa, é a jararaca-ilhoa (Bothrops insularis) descoberta em 1921 na ilha da Queimada Grande, no litoral de São Paulo: é uma das cobras mais venenosas das Américas e tem a particularidade de ter três sexos - muitas delas são hermafroditas.

Quem faz questão de descobertas de maior porte, porém, deve procurá-las na água, de preferência nas profundezas do mar. Até mesmo alguns peixes de rio bem impressionantes foram descobertos no século XX, como o bagre gigante do Mekong (Pangasianodon gigas), que chega a 2,5 metros e 300 quilos, é mais longo e pesado que nossos pirarucus e piraíbas. Mesmo assim, bem menor que o tubarão-bocudo (Megachasma pelagios) de 1976, que chega a mais de cinco metros e 750 quilos. Descoberto no Pacífico, foi também encontrado em águas brasileiras: há um preservado no Museu de Pesca, de Santos.

Mas a descoberta mais notável, em termos de tamanho, foi a "lula colossal" Mesonychoteuthis hamiltoni, que chega a 900 kg e quase dez metros de comprimento (metade corpo, metade tentáculos). Dois braços desse cefalópode foram achados no estômago de um cachalote em 1925, mas só em 2003 pescou-se um animal completo. É do mesmo comprimento da conhecida "lula gigante" Architeutis dux, identificada desde 1857, mas pesa o triplo e vive apenas no Antártico, entre 1.000 e 2.500 m de profundidade (a Architeutis, que é encontrada em todos os oceanos, vive entre 300 m e 1.000 m).


Antonio Luiz M. C. Costa formou-se em engenharia de produção e filosofia, fez pós-graduação em economia e é um entusiasta das ciências sociais e naturais. Ex-analista de investimentos, atua no jornalismo desde 1996.
Terra Magazine

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